sexta-feira, 30 de março de 2012

Apercebi-me que estou cansada.
Sim, é isso. Cansada.
Completamente cansada!
O tempo.
Qual tempo?
Não há tempo.
Ou, há tempo demais!
Os segundos não param, os minutos seguem, um atrás do outro, as horas avançam e, com elas, os dias, os meses, quem sabe, os anos..
Devagar, devagarinho, ou rápido, talvez..
Não sei!
Só sei que estou cansada.
Cansada e cansada de estar cansada!
(30/03/2012)
Uma luz que vem de longe..
Todo um espaço a abrir perante os meus olhos..
Um espaço lindo, flores e ervinhas por todo o lado..
E uma casinha pequena ao fundo..
Uma voz pede-me que avance.
Mas o medo impede-me de andar, as minhas pernas tremem e os pés parecem colados ao chão..
Olho para baixo, estou a pisar a relva, o meu pensamento fixa-se aí.
De repente, como que adivinhando-me, abre-se um caminho de terra batida por entre a relva.
Os meus olhos seguem-no.
Vai dar à casa.
Sem pedir licença, o meu pé direito avança e o esquerdo tende a acompanhá-lo.
Quando me apercebo, estou à frente da porta.
E uma voz distante pede que a abra.
Sinto o medo colar-se à minha pele.
Dirijo-me ao lado direito da casa e espreito pela janela.
Susto!
Uma mão faz-me sinal para entrar.
Não quero. Faço um sinal negativo com a mão e corro em direcção à terra batida.
Chegada a meio do caminho percebo que não há como fugir..
Só terra e o céu azul brilhante.. e as flores por todo o lado.
E, novamente, a voz.
E, novamente, o medo.
Volto atrás.
Chego à porta cansada e a minha mão agarra o puxador.
Abro lentamente e a medo.
Lá dentro, ao fundo, uma lareira acesa e as chamas a iluminar toda a sala.
E a mão. Ao centro, a mão. Só a mão, a chamar-me, a pedir que a toque.
Falo baixinho: “não quero”.
Mas a mão não fala, a voz desapareceu e eu sinto um vazio enorme.
Um vazio totalmente preenchido de coisa nenhuma.
O medo agora obriga-me a entrar.
Sento-me na poltrona que está em frente à lareira e a mão está no meio da sala, continua a fazer sinal para que lhe pegue.
As lágrimas escorrem descontroladamente e começo a balançar..
Sinto frio..
Sinto medo..
Ali fico..
Não agarro a mão..
Não quero..
Ali fico..
(30/03/2012)
Voltei a pegar na caneta sem saber bem como, nem o porquê.
Simplesmente peguei nela.
Abri o caderno e ela começou a escrever quase sem o meu consentimento; parece ter vontade própria.
No entanto, escreve o que sai dos meus pensamentos.
Parece ter qualquer ligação com o meu cérebro e desliza com uma rapidez impressionante.
Peço-lhe que pare. Mas não consegue.
E continua a escrever rapidamente como que suplicando que a acompanhe, que a ajude a progredir.
Voltei a deixar-me seduzir por ela e, por isso, de alguma forma, correspondo às suas súplicas.
Momento confuso.
Volto a debruçar-me sobre a dúvida.
A dúvida..
Mas qual dúvida?
Sei lá...
Nem isso sei.
E quero mas não posso.
Faço sem querer.
Penso mas não penso.
Escrevo, sem escrever.
E quase vivo, sem viver..
(30/03/2012)

quinta-feira, 22 de março de 2012

Hoje estou sem vontade...
Não me apetece discutir, não me apetece rebater, não me apetece falar..
Não sei porquê. Não sei o que me deu.
Não faz parte da minha natureza.
Talvez esteja cansada..
Apenas isso, cansaço!

(15/03/2012)
Um dia de chuva!
Dia 15 de Março de 2012.
Trovoada!
Um céu escuro que, de longe a longe, é invadido pela luz de raios que me fazem estremecer..
O meu corpo todo estremece..
Um café, uma mesa e uma cadeira na rua, uma protecção em volta..
Uma protecção frágil, apenas essa protecção a separar-me das gotas grossas que escorrem pelas vidraças..
Talvez não a quisesse.. Talvez preferisse unir o meu corpo à manifestação da natureza..
Este Inverno foi seco.. Quase não choveu..
E será, provavelmente, por isso que a natureza se está a manifestar de forma tão agressiva.
As pessoas passam, de um lado para o outro, a correr, a fugir da força da água a cair do céu..
E eu aqui, protegida.
Protegida sem querer.
Pergunto-me o que pensariam essas pessoas, essas que correm, se, de repente, me levantasse calmamente e me deixasse banhar pela chuva; se andasse, lado a lado com elas mas sem correr, sem fugir.
Pensariam, claro, que sou doida.
Aqui e ali talvez se fizessem ouvir alguns comentários a reprimir a minha atitude.
Talvez tivessem pena de mim.
E talvez eu não me importasse com isso.
Sim, talvez o faça..
(15/03/2012)

quarta-feira, 21 de março de 2012

O consolo da escrita..

Desde que me lembro, sinto um fascínio incontornável pela leitura.
Devoro livros como quem vive para isso.
Sempre gostei da sensação que a leitura me fornece e ela têm-me acompanhado ao longo da vida.
É, sem dúvida, uma amiga para mim.
Quando toco num livro, sinto um prazer que não consigo descrever.
E gosto de tudo! O formato dos livros, a capa, as páginas, as letras ordenadas, o cheiro e a sensação do desconhecido antes de iniciar a leitura..
A escrita é, talvez, mais do que isso.
A escrita faz com que me sinta despojada de tudo.. Sinto-me leve quando escrevo..
Com ela, deito para fora o que, provavelmente, nunca conseguiria dizer.
As palavras ditas são sempre mais difíceis, mais dolorosas..
E a escrita traz-me uma calma que enleva o espírito..
Deixei de escrever durante alguns anos e isso pode ter sido um erro..
Corrijo, foi, de facto, um erro!
A escrita é, porventura, um consolo..
O consola da alma..
Um consolo que me traz felicidade..
Novamente o sol..
Desta vez um sol de final de tarde..
São 18 horas e eu estou sentada na esplanada de um café..
O mundo gira à minha volta..
Ah, que frase tão familiar; principalmente para mim, leitora compulsiva.
Mas, agora que penso nisso, é mesmo o que acontece.
Parece não dizer nada mas, no fundo, é o que se está a passar.
Estou aqui sentada e o meu cérebro completamente inundado de pensamentos.. e o mundo cintinua a girar..
As pessoas que me rodeiam continuam as suas vidas completamente alheadas de mim. E dos meus pensamentos..
E outra vez sinto um contentamento tal que não sei de onde vem. Não sei onde me leva.
Engraçado!
Li, há poucos dias atrás, um texto que será, com toda a certeza, conhecido de todos.
Um escrito de Pessoa: "Não sei quem sou, que alma tenho".
Já era meu conhecido de tempos longínquos, dos tempos de escola, quando me apaixonei pela escrita deste Senhor.
Sempre me revi neste texto, sempre me reconheci nele.
Nos últimos dias, no entanto, aquelas palavras fazem mais sentido do que nunca.
Estou numa fase da vida (sim, fase parece-me bem) em que a maior parte das pessoas estaria em estado de desespero total.
Mas não! Não estou. E, por vezes, sinto-me culpada por não estar.
Deverei sentir-me assim? Quem sabe?
Sou um ser humano, claro. Por vezes parece o fim da linha e as lágrimas escorrem descontroladamente pela minha face.
Depois, sabe-se lá de onde, vem a força. Uma força que não me lembro de ter sentido antes, em nenhum outro momento.
Talvez esta força venha da percepção de que o meu mundo é uma mão cheia de coisas.
Sim, é isso. Sou múltipla também..
Um conjunto de ideias, de pensamentos, de sentimentos,.. Um conjunto que me preenche, cada coisa com a sua função.
Talvez me tenha esquecido disso durante algum tempo. Tempo demais!
Não sou só isto ou aquilo.
Sou o conjunto disto com aquilo..
Sou tudo e nada..
Ou, então, "não sei quem sou, que alma tenho"..
E, novamente, o preenchimento na imcompletude..
(09/03/2012)